Abaixo Ivan Lessa e seu humor irônico e cortante, abordando um tema que muito me incomoda. As idas e vindas da ciência, tida como a mãe da verdade, são deveras irritantes, para dizer o mínimo. Não que a ciência não seja boa, efetivamente não se trata disso. Mas, a forma como tantas e tantas vezes a usam, inclusive, como ele denuncia, de forma “industrial”, é que me inquieta, e por isso a repudio. O que ontem era bom, hoje vira um veneno tão mortal quanto os efeitos de uma bomba atômica (e zilhões de dólares/euros/reais são gastos por isso), para, algumas décadas depois, voltar a ser bom. Fato é que nada, ou quase nada, sei lá, é somente bom ou somente ruim, como os cientistas maniqueístas muitas vezes querem fazer crer. Ou seja, se algo faz mal para determinado aspecto do organismo, faz bem a outro, não necessariamente nesta mesma ordem… Deixo o Ivan falar, pois já disse muita abobrinha.
É pra gente pegar sol. Sol é danado de bom pra gente. Sol ajuda a proteger a gente contra certas formas de câncer. Sol é ótimo para conter doenças cardíacas. Raios! Raios solares!
Eu feito um idiota crente que era pra tomar um bruto cuidado com o sol. De uns 30 anos para cá. Mais ou menos. Quando eu era garoto de praia, e dela não tirava o corpo, o sol só era importante para a pelada e o jacaré e o olho bobo nas moças.
Todos nós não ligávamos para aquele que uns tolos ainda chamavam de “propalado” e além do mais “astro-rei”. O sol não fazia mais que sua obrigação ao ficar lá em cima mandando sua brasa “ninóis”.
Loção era apenas pra se queimar mais rápido. Jovens de todos os sexos – e como havia sexos, minha gente – comparavam seus bronzeados. Bacanérrimo ser moreno. Todos nós éramos morenos. Feito o poeta falou. Lá mesmo. Zona sul. Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon.
Nunca que ninguém ouvira falar em fator 8. Ou fator 6 ou 12. Não havia fatores a não ser na aula de matemática. Ou num papo empolado. “Porque há um fator aí que temos de levar em conta. Trata-se de …” Coisa e tal.
Depois, muito depois, chegou o câncer, com sua carona hedionda. Câncer, que ninguém gosta sequer de pronunciar ou ver escrita a palavra. E eis que o sol vira uma indústria.
“Por que há um fator muito importante nessa história de pegar muito sol. Dá câncer de pele e …” Esse o papo tipo acabado do tal fator para esse ou aquele outro tipo de pele.
Frise-se: o fator pele é muito importante. Sem a pele não teríamos calafrios, brotoejas, eczemas e, nunca é demais lembrar, algo que aparasse e segurasse nosso esqueleto. Pele é muito importante.
As pessoas (sempre dos mais diversos sexos) se tocam e se apalpam para ver se combinam, se a coisa – é, a coisa – vai ser legal ou não.
Falando sério
Em suma, digo, embora não entenda nada de sumas, que não são o meu forte. Em suma, ia dizendo eu, o sol, que não tinha contra-indicações, um belo dia de chuva passa a ser um perigo para nossa tão frágil pele.
Há séculos que as pessoas se entopem de cremes e loções com os mais variados fatores e outros ingrediente misteriosos a fim de proteger o corpo contra as inclemências do bom tempo à beira-mar ou beira-piscina.
Agora, fico sabendo, e vocês também, que sol é bom e faz bem. Isso segundo a ciência. E ciência americana, que é uma arte exata e válida para livre exportação para todas as partes do globo, ensolaradas como o Quênia ou chuvosas como a Floresta Amazônica.
Paro de deblaterar e vou às batatolinas.
O senhor doutor Richard Setlow, biofísico do Laboratório Nacional de Brookhaven (laboratório, é? Hmm. Sei), e tido como perito nas radiações solares e seus possíveis elos com o câncer de pele, publicou um estudo neste mês, via a Academia Nacional de Ciências norte-americana, argumentando que as pessoas com alto nível de vitamina D, aquela produzida por nossa pele, têm mais possibilidade de sobreviver a vários tipos de câncer, tais como os do cólon, mamas e pulmões.
A vitamina D, conforme sabemos, é pródiga nos raios solares, onde se encontra embutida esperando a hora de vir ao encontro de nossas aveludadas, muitas vezes deliciosas, peles.
Portanto, é bom ficar exposto ou expostíssima ao sol. Foi a ciência e ciência americana quem decretou. Todos à praia, portanto. Sem aquelas pomadas e cremes desagradáveis à vista e ao tato. Não se arrependerão.
Conclusão
A imprensa britânica, ao dar a notícia e resumir, muito melhor do que eu, seus pontos médios, altos e rarefeitos, lembrou outras coisas que podem, como o sol e seus raios de seus raios (pegaram?), não passarem de lendas urbanas ou mitos sobre a ubíqua vitamina D.
Leite, salmão, sardinha e – aargh! – óleo de fígado de bacalhau contém vitamina D pra chuchu. O chuchu, não. Esse é indiferente. Como costumava ser com o sol dos anos 40, 50, por aí. We took the sun for granted, conforme dizem por aqui.
Ivan Lessa
Fonte: BBC Brasil -
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/01/080114_ivanlessa.shtml