Todas as manhãs e fins de tarde, mas principalmente nas manhãs, ocorre no bairro onde moro um bizarro baile. Como este é um bairro no qual 99,9% das construções são prédios, dos quais mais de 90% residenciais, todos os “totós” são trazidos à rua para seu alívio matinal.
Saquinhos nas mãos de seus criadores são tão raros quanto políticos honestos: você sabe que deve haver algum, torce para encontrá-lo, mas isso quase nunca acontece. Como os amigos dos totós não querem trabalho, mas também não são loucos para ver vantagem em deixar o resultado da obra de seus “melhores amigos das madames” em sua própria calçada, cada qual procura a calçada do vizinho! Solução prática, não é?!
As cenas que se vê seriam cômicas se não fossem absolutamente bizarras. A bondade e o desprendimento destes seres especiais e ungidos pelo bom senso e pela noção de que o público é de todos e não de ninguém, produz um baile diário de totós para lá e para cá, obrando e deixando suas obras para os vizinhos e para os pedestres em geral.
Inspirado em Fado Tropical de Chico Buarque, e desde já me desculpando com ele por isso, canto:
“Ai este bairro ainda vai cumprir seu ideal,
ainda vai tornar-se um imenso bostal”!
