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Era das artificialidades

10 Dezembro, 2007 · Deixe um comentário

Acho tudo muito artificial nesta época do ano.

Não só porque neva 10 minutos por dia em pleno verão paulistano! Tampouco porque montamos pinheirinhos multicores em nossas residências e escritórios, ou porque penduramos grossas meias em janelas e, pasmo, lareiras!

Esse tipo de insanidade coletiva decorre do mito de que o “bom velhinho” habita o Pólo Norte, terra do gelo (pelo menos antes das mudanças climáticas) e de um eterno e inconsciente desejo de ser o outro.

Ainda mais insano que isso, porém, é a sanha consumista. A corrida maluca para ver quem gasta mais, quem carrega mais pacotes e sacolas, esbarra em mais pessoas, fecha mais cruzamentos, buzina mais alto e por mais tempo, enfim, quem é mais estúpido é o verdadeiro “espírito de natal”. Não vou dizer “espírito de porco” porque este, apesar de não ter culpa no cartório, já virou pernil.

Isso tudo combina muito com o tempo. Quando não está fazendo calor, esta chovendo e fazendo calor. Uma maravilha! É meleca para todos os gostos. E papai noel lá, literalmente suando a camisa e a densa barba para descolar um trocado.

E aí, no meio de tantas artificialidades, surgem os espíritos caridosos. Esses mesmos que ficaram o ano inteiro absorvidos pela premente necessidade de cuidar de suas próprias vidas, com especial zelo para uma parte fundamental do corpo humano chamada bolso. Tomados de um ímpeto cristão de irradiante caridade, estes seres tão iluminados se tocam que pessoas “carentes” não terão fartas ceias de natal. Que crianças “carentes” não receberão diversos brinquedos ultra modernosos.

Como se fosse diferente no restante do ano…

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Fundação Zoobotânica de Marabá

27 Novembro, 2007 · 2 Comentários

A Fundação Zoobotânica de Marabá, projeto da sociedade civil que conta com o apoio de parte do empresariado local e de órgãos governamentais dos três níveis, realiza um importante trabalho na região. Eles recebem em sua sede, importante porção de mata nativa em meio à grande devastação para formação de pastagens e lavouras que se transformou esta região sudeste do Pará, animais capturados por terceiros e apreendidos pelos órgãos ambientais. Este animais recebem cuidados especiais para serem reintroduzidos ao seu habitat natural. Além disso, a Fundação Zoobotânica desenvolve um Programa de Educação Ambiental (PEA) junto ao público escolar do município. Além da grande transformação regional decorrente do Projeto Grande Carajás (fins dos anos 1970 em diante), da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), esta região de expansão de fronteira agropecuária foi aberta em plena Floresta Amazônica, ao longo do século XX, na expressão de um analista, “pela pata do boi”. E de fato ainda hoje esta é uma das principais atividades econômicas do município, além da prestação de serviços (por ser pólo regional) e do setor secundário, por meio, sobretudo, de guseiras que utilizam uma ínfima parte do minério produzido pela CVRD . Aliás, esta última característica resulta no efeito perverso de intensificar a derrubada da floresta, visto que tais indústrias utilizam, em sua maioria, carvão ilegal feito a partir de mata nativa, muitas vezes através de pequenos produtores em condições insalubres de trabalho.

 

Araras em recuperação

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Consciência Negra

20 Novembro, 2007 · Deixe um comentário

José Divino

Saí de casa hoje cedo, como de costume, com a máquina fotográfica na mochila. Quando estava quase chegando ao ponto de ônibus o mesmo passou. O próximo só em 15 ou 20 minutos. Sentei no passeio, à sombra, do outro lado da rua e já ia pegar algo para ler quando chega um senhor negro e se põe a cantar, revirando uma pilha de sacolas plásticas de lixo amontoado na rua, aguardando o serviço de coleta.

José Divino José Divino
José Divino José Divino

Belo Horizonte, 20 de novembro de 2007 – Dia da Consciência Negra

Ele, por ele mesmo:

“Meu nome é José Divino dos Santos. Tenho 52 anos e tem 8 que vivo disso aqui.”

“Eles perguntam se sou aposentado. Se fosse ficava lá em casa, quietinho.”

“Trabalhava com obras. Depois que passei dos 40 não me deram trabalho mais.”

“Já tem 8 anos que vivo disso. Eles não dão nada para a gente. Se peço, acham ruim. Mas, jogam tudo fora. Inclusive coisas boas.”

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência…

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Diferentemente igual

17 Novembro, 2007 · 2 Comentários

“É preciso que tudo mude para que tudo permaneça como está”. Tomasi di Lampedusa que me perdoe, por citar assim, tão fora de contexto e com um outro sentido, sua clássica frase de “O Leopardo”, mas é deste modo que vejo Sete Lagoas pela janela de meu velho quarto, na casa de meus pais. Aliás, esta frase tem diversas traduções. Ou seja, até ela teve que mudar para continuar como sempre esteve.

Passados pouco mais de 14 anos e meio que fui para Belo Horizonte, muita coisa mudou por aqui. Mudou a cidade, mudaram as pessoas da cidade. Normal. Mas, meus sentimentos em relação a isso se mostram, há longa data, enormemente confusos e perturbadores, para dizer o mínimo.

sete lagoas
Sete Lagoas-MG, 06 de Abril de 2007

Já não me reconheço tanto em Sete Lagoas, senão por uma vaga lembrança. Suas periferias, hoje, são bem mais distantes, reflexo da expansão urbana. Mancha urbana maior, população maior, claro. O censo demográfico de 1991 informava um total de 144.014 habitantes, enquanto que o de 2000 já apontava para 184.871 e a recentíssima contagem da população, de 2007, acaba de contabilizar 217.506 habitantes, tornando-a a 12ª maior cidade mineira em número de habitantes e 116ª do Brasil. Embora isso não seja vantagem alguma, muito antes pelo contrário, ocorreu, portanto, um significativo crescimento demográfico de 64,46% neste período de 16 anos.

A péssima gestão da coisa pública, não obstante, ainda impera. Políticos corruptos, interessados em benefícios monetários pessoais e imediatos, desviam recursos de forma inescrupulosa e vil. Tudo como dantes.

A maioria de meus colegas de escola não mais conheço ou reconheço. Muito raramente cruzo com algum pelo centro comercial da cidade, mas a eterna timidez, associada a uma estratégica falta de memória para nomes (sim, pois quando faço trabalho de campo sou capaz de memorizar quase todos os nomes e sobrenomes) faz com que não me aproxime. Pelo contrário, tento mesmo é desviar do caminho na maioria das vezes. Sempre há aqueles que não fazemos questão de rever, e sei que a recíproca é verdadeira. Vez ou outra passo a vergonha e o constrangimento de ser abordado por algum e não conseguir lembrar não só do nome como de quando, como e porque o conheci. Andando pelas ruas noto que as pessoas de hoje são tão diferentes! Tem dia que não reconheço nenhuma.

Mas, o coração da cidade permanece, em grande medida, o mesmo do ponto de vista arquitetônico. Com exceção da estação ferroviária, que virou museu e sua linha uma grande avenida, e da região onde antes ficava o Sete Lagoas Tênis Clube, que chamávamos de “praça de esportes”, na qual hoje se encontra efetivamente uma grande praça, mas não mais de esportes, tudo permanece praticamente estático. Sete Lagoas é uma cidade que cresce pelas bordas, como deve ocorrer em outras tantas. Aliás, cresce por uma única borda, sentido oeste. É a nova marcha para o oeste. Mas, o cerne perdura, ou pelo menos se altera bem mais lentamente, o que não é ruim. Concordo com Halbwachs que os objetos e sua disposição proporcionam lembranças familiares, que a estabilidade é importante para o equilíbrio mental e que os grupos sociais mudam com uma velocidade bem maior que as cidades, na maior parte das vezes. Isso é importante para a sanidade mental de todos.

Meus amigos, aqui, ainda são os mesmos, como diria Belchior, inspirado nele mesmo. Os ídolos são outros, mas isso não vem ao caso. Alguns casaram, descasaram. Ou não. Alguns tiveram filhos, outros terão em breve. Quase todos permanecem diferentemente iguais, como a cidade. Nossos antigos costumes, como jogar futebol, baralho, sinuca, tudo regado a bastante cerveja e amizade, são para eles uma agradável rotina. Para mim, quase sempre uma vaga e saudosa lembrança. Pura nostalgia. Trabalham com dignidade e persistência, quase sempre em serviços braçais, pouco cerebrais, que lhes garante uma vida material simples, precisa, exata, sem abundância ou falta.

amigos
Sete Lagoas-MG, 06 de Abril de 2007

Em comum, hoje, temos o passado. E isso nos prende com a força que este passado teve e tem em nossas vidas. Somos amigos, irmãos. Apesar disso, nunca, isto mesmo, nunca, nesses pouco mais de 14 anos e meio, recebi uma visita sequer de um deles. Se vou a Sete Lagoas, porém, e deixo de encontrá-los, todos reclamam. Deixam, quando possível, outros compromissos para nos encontrarmos unicamente para contar os mesmos velhos e bons casos de sempre. Eles são o nosso elo. Além de, claro, as cervejas, de ontem e de hoje.

A probabilidade de que algum deles venha a ler estas tortas linhas é praticamente nula. O acesso à informática, e mais ainda à rede mundial de computadores, passa longe de seus horizontes. Consideram algo muito complexo, além de um luxo desnecessário.

E assim fico daqui, da janela de meu velho quarto, olhando as luzes da cidade e pensando no quanto tudo aqui está diferentemente igual.

pela janela
Sete Lagoas-MG, 17 de Novembro de 2007

 

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A expectativa era outra…

14 Novembro, 2007 · 1 Comentário

Escrevi isso em 2005, quando morei durante alguns meses em Sete Lagoas… Foi redigido de forma despretensiosa, apenas para minimizar o ócio.

A Expectativa era outra…

Em diversas situações as pessoas fazem perguntas tão prontamente certas de que ouvirão algo positivo como resposta que ao ouvirem o contrário levam um enorme susto.

Isso acontece muito comigo. Lembro-me de alguns casos mais recentes…

O último deles, foi em uma locadora de dvd’s, em Sete Lagoas. Estava voltando do trabalho e como o tempo estava chuvoso, usei uma mochila para transportar minhas coisas. Resolvi entrar em uma locadora, como disse, a fim de ver as novidades e escolher alguma. Entrei com a mochila nas costas, posto que seu formato foi criado para isso e esse é, efetivamente, seu jeito mais cômodo de ser transportada. Já estava há uns dois minutos dentro da loja, com o filme em mãos, pronto para me dirigir para o balcão para retirá-lo quando uma moça, bastante educada e gentil, se aproximou e disse:

- O senhor se importa de deixar sua mochila no setor de conveniências?

Ao que, com toda educação e delicadeza que me são peculiares, respondi:

- Importo, sim.

Notei que a moça não sabia, absolutamente, como reajir. Sua certeza de ouvir uma resposta positiva, dizendo que não me importava e que faria isso com muito gosto, foi jogada por terra. Suas convicções ruiram…

Fui obrigado a esclarecer que estava com muita pressa e que já estava de saída, pois já havia escolhido o filme, para diminuir um pouco a insegurança daquela criatura perante todas as suas certezas frente ao resto de sua vida…

Noutras ocasiões faço isso com o gosto mesmo de obrigar que meus interlocutores percebam certas coisas. Um caso desses ocorreu na cidade mineira de Aimorés, onde estava a trabalho. Após almoçar estava aguardando, pacientemente, minha vez de ser atendido em uma fila que se formara em frente ao caixa do restaurante self-service. Notei que um casal que havia terminado de almoçar se levantara e estava se dirigindo para a saída. Ao passar pelo caixa, o rapaz disse para a moça para fazer o pagamento, enquanto ele buscava o carro.

Como a moça ficara imediatamente atrás de mim na fila, já fui logo pensando: isso ainda vai dar problema…

Dito e feito. A moça não se continha em si, de tanta pressa. A fila andava lentamente, mas à minha frente haviam apenas duas pessoas. Enfim, nada extraordinário. Pouco antes de chegar a minha vez, quando o cliente da frente já estava sendo atendido, o rapaz parou o carro em frente ao local e buzinou. Com este simples gesto, ele já ganhou minha total antipatia. E mais uma vez eu pensei: isso ainda vai dar problema…

Assim, quando o cliente da frente terminou de ser atendido, vem para o meu lado, toda lépida e fagueira, já se adiantando, a moça que estava depois de mim na fila e diz :

- Eu posso passar na sua frente, rapidinho?

Ao que eu, bastante bem humorado como de costume, prontamente lhe respondo com todas as letras e em firme entonação:

- Não!

E a deixei ali, com aquela cara de tacho, como dizemos aqui no interior das Minas Gerais, sem saber o que fazer e muito menos para onde ir…

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